32
Eu não acho seja correto classificar um período como bom um ruim falando-se em anos. “2001 foi um ano bom”. No geral? Em termos? Na média? Não é assim que funciona. Meu ano que se encerra hoje teve, como todos os anteriores e, imagino, os que estão por vir, seus altos e baixos. De qualquer forma, como é padrão escolher esse tempo fechado para fazer o balanço das coisas, aqui estou, escrevendo outra vez.
Chego aos 32 com ao menos uma nova certeza: sou outro, e sou o mesmo. O ano que se encerra hoje me trouxe a mais profunda transformação pela qual passei. No dia 07 de dezembro de 2010 eu embarcava, literalmente, na experiência mais intensa da minha vida.
Fui trabalhar em navio. Era basicamente o que eu sabia, até o primeiro dia: vou trabalhar como fotógrafo em um navio de cruzeiro. Tudo o que eu tinha de informação sobre o trabalho e a vida a bordo vinha das conversas com um amigo que já havia feito a mesma coisa um ano antes. Milhares de dúvidas nas conversas por MSN que ele respondeu com paciência e empolgação, me colocando cada dia mais pilha pra entrar nessa também. Eu fui, meio sem botar muita fé que ia dar certo, sem muito alarde. Muitos amigos ficaram sabendo uns dias antes.
Quando você chega num navio para trabalhar pela primeira vez é como se mudar sozinho para outro país. Estaca zero. De um dia para o outro você não tem mais sua família e amigos por perto. Não tem mais a sua casa. Não tem mais o seu trabalho. Imediatamente você é bombardeado com centenas de novas informações, pessoas das mais variadas culturas, falando 4 ou 5 línguas diferentes. Jogado numa cabine minúscula sem janela, tendo que dividi-la com um completo estranho. Sem experiência alguma, você aprende fazendo. E aprende rápido, porque não há muito espaço pra erros.
Na realidade, esse não é um texto sobre o trabalho no navio. É sobre a transformação que esse trabalho me trouxe. Nos 3 primeiros meses lá dentro não houve um só dia em que eu não pensei em desistir e voltar pra casa. O que me manteve lá foi o motivo pelo qual eu aceitei esse trabalho, em primeiro lugar: eu precisava me curar. Através de todo o sacrifício, me curei. Passados os três primeiros meses, eu tinha menos 10 quilos na balança e menos 10 toneladas no peito. Atravessei o Atlântico mais leve, com o corpo em frangalhos e o espírito endurecido pelo trabalho duro, mas a alma leve pelo sabor da conquista.
Curado, passei a realizar alguns sonhos e viver experiências incríveis. Conheci 16 países. Conheci centenas de pessoas de todo canto do mundo. Aprendi uma nova língua e quase desaprendi outra por adaptar meu sotaque ao inglês dos colegas filipinos. Aprendi muita coisa nova dentro da minha profissão. Aprendi a me virar sozinho por pura falta de ter com quem contar em determinados momentos. Enfim, cresci. Encontrei no mínimo duas pessoas que deixaram pra sempre suas marcas em mim. Um irmão chileno na pessoa do Denis, que me ensinou mais sobre a vida em nossa convivência diária do que eu jamais achei que seria capaz de aprender. E uma… uma coisa, que eu até hoje não sei como denominar, completamente nova e muito bonita com aquela menina da Espanha de sorriso fácil e olhar misterioso que também tinha tanto pra me ensinar. Experimentei o que é me apaixonar puramente pela essência de uma pessoa, antes mesmo de notar sua beleza física. Isso, pra mim, foi uma transformação absurda. Ao lado dessas pessoas e de algumas outras que vou guardar com carinho, vivi momentos totalmente inéditos. Momentos tão intensos quanto a primeira vez que o ar penetra os pulmões de um novo ser e a única reação possível é chorar. Então chorei quando pisei na África, lá do outro lado do oceano, pela primeira vez. Eu, que mal conhecia o Paraguai, aqui do lado. Chorei quando entrei numa pequena sala de um museu imenso na Rússia e me deparei com as telas do Monet, lembrando de tudo que ele representa e pode ensinar pra alguém que faz o que eu faço. Chorava sozinho na cabine 2025, cansado ao final de 12 ou 14 horas de trabalho, com saudades de casa mas feliz porque aquilo que amo, a fotografia, estava me levando a cada dia um pouco mais longe. Chorei quando os novos amigos iam embora e aos poucos a tripulação se renovava. Chorei copiosamente abraçado nessas pessoas especiais quando chegou a minha hora de ir embora. E chorei ao rever minha família e alguns dos meus melhores amigos me esperando quando voltei. Transformado, crescido, mais forte. Mas ainda eu. Ainda intenso e com o olhar carregado de falsas esperanças e decepções verdadeiras. De qualquer forma, pronto para o que pudesse vir pela frente no resto de ano que eu tinha pra viver. E vieram mais 6 meses…
Voltar ao mundo que eu havia deixado pra trás 6 meses antes talvez tenha sido ainda mais difícil do que partir. Tudo era exatamente igual, menos eu. Você se sente deslocado e não sabe mais se continua fazendo parte daquilo. Acordei da primeira noite de volta no meu quarto sem saber onde estava. Ri alto quando percebi que era minha casa e não, eu não estava atrasado. Não precisava levantar correndo pra lavar o rosto, colocar o uniforme de qualquer jeito e sair do navio pra enfrentar o vendo gelado do porto de Tallinn, na Estônia. Eu estava em casa, podia virar pro lado e dormir outra vez. Só que aos poucos começa a ser estranho não acordar segunda na Suécia, terça na Alemanha, quarta na Dinamarca, sexta na Rússia e sábado na Finlândia, ou sei lá. Não estar mais em movimento incomoda, depois que você acostuma. Foi mais um aprendizado forçado, reaprender a viver nesse ritmo mais lento. Mas aprendi.
De qualquer forma, o ano continuou me trazendo novas experiências e algumas pessoas incríveis. Os grandes amigos continuaram ao meu lado e o saldo entre aqueles que se afastaram - alguns por minha total incapacidade de lidar com as coisas e meu talento nato para estragar tudo - e as novas e importantes pessoas que reuni ao meu redor tem sido bastante positivo. Aquela menina especial está continentes longe de mim. De qualquer forma, ela cumpriu um papel na minha vida e tenho ciência disso. Apareceu, me transformou, seguiu seu caminho. Se agora é o meu já citado dom para fazer besteira que me impede de viver outra coisa assim tão incrível, bem…
Toda essa transformação pela qual passei em 2011 me tirou um pouco da intensidade, mas nada da esperança. Continuo acreditando e, pro ano que começa agora, o meu 32º, eu não desejo muito mais do que já tenho. Claro, seria ótimo conhecer outros 16 países. Ainda quero voar de balão e saltar de paraquedas. Não deixei totalmente de lado meu desejo de voltar a pegar onda e andar de skate e prometo revisar mais uma vez minha bicicleta. Quero usar menos o carro, continuar me alimentando cada vez melhor e, principalmente, aprender a manter por perto aqueles com os quais me importo. Aprendi a pedir desculpas e a desculpar. Não guardo mais rancor e não tenho ódio de ninguém, principalmente por motivos bobos. A vida segue, aprendi. E a gente se adapta. Sempre se adapta. Quero continuar mais leve de corpo e consciência. Quero fazer com que minha melancolia pela qual os amigos próximos me conhecem seja um traço cada vez mais sutil. Quero sorrir mais. Trabalhar mais, continuar crescendo. Ainda há tudo o que aprender.
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